Os multiversos habitados por objets trouvé de Raimundo Rodriguez

Sorte ou revés? O mundo dos jogos e dos vícios é de certa forma, também, o mundo atrativo dos números, das formas e das cores. Curiosamente, em física e cosmologia, a ideia da existência de vários universos simultaneamente é admitida através de algumas teorias. Estas confirmam também a possibilidade de vivermos em uma de muitas dimensões ou como são chamados, em um dos inúmeros “multiversos”. Provados ou não no campo da física, correto é afirmar que uma proposição conceitual pode ser convertida em uma equação (lógica formal), e que sob o olhar da matemática, tudo o que existe, existe em números, em cálculos e em repetições. Poder-se-ia então, neste sentido, por meio de uma metáfora, estender poeticamente, para o campo das artes visuais a existência desses “multiversos”, mais precisamente, deslocando-os para a produção multifacetada do artista plástico Raimundo Rodriguez.

Tais “multiversos”, formados a partir da subjetividade artística traduziriam com excelência a complexidade e a capacidade criativa enquanto um traço pós-moderno gerador de inúmeras linguagens que se cruzam, produzindo diferentes pinturas, desenhos, objetos, “não-objetos”, assemblages/colagens, e esculturas. Sorte!

Nessas incontáveis dimensões categóricas em que a obra de Rodriguez parece transitar multiplicando-se incessantemente, repousa uma constatação sutil, relativa à presença da temática de elementos lúdicos que justapostos dialogam com mais um universo invisível, entre tantos possíveis, que é o universo dos jogos jogados e gastos, das cartas usadas, dos irônicos trevos de cédulas e de perdas e ganhos indecifráveis.

Uma charada artística e um delírio hipnótico, como o que acomete o jogador de Dostoievski, fazendo-o ver estrelas em pleno dia. As apostas de Rodriguez são altas, apesar do título da exposição indicar a construção de um “olhar” estético pouco surpreso, mas não menos encantado; um “olhar” maduro, e já conhecedor das criações do artista. Todavia, é notável constatar a etapa singular do processo pelo qual a obra do artista atravessa, isto é, desde os latifúndios dos últimos anos, feitos, ainda exclusivamente a partir da manipulação de latas de tinta (suas “sobras” do mundo” prediletas), até sua conversão material em latifúndios distintos, como os feitos de tecido, carpete, fórmica, papel. Abusando de cores vívidas, do jogo matemático inveterado de formas presentes na geometria harmônica de quadrados e triângulos que se interpenetram quase infinitamente por meio de dobras e redobras – como ocorre no retângulo áureo e nas espirais de Fibonacci, do jogo de palavras que se misturam em sagazes neologismos, e do uso irrestrito de materiais variados, tais como: cédulas, carpete, tecido, fotografias, latas de tinta, cartas de baralho, caixas de leite, etc., o artista vai povoando seus multiversos exponencialmente com particulares objets trouvé, não hierarquizados, através de obras denominadas: “Trevo da sorte”, “Latifúndios”, “Mimetização de interiores”, “Lactofúndios”, “Diapositivos”, entre outras, na exposição “Multiverso: nada que você já não tenha visto antes”. Apostas na mesa. Os dados estão, enfim, lançados.

Profª drª Renata Gesomino. Departamento de Teoria e História da arte do IART-UERJ. Crítica de Arte e Curadora independente.